Kitsune, a raposa de mil faces

21 de Setembro de 2016

Por: Oki


Hoje em dia a raposa ou, kitsune, infelizmente não é mais encontrada no Japão na natureza com a mesma frequência do que nos tempos antigos. Nos registros do Nihon Ryakki, um dos documentos históricos mais antigos do Japão, é possível encontrar relatos do século IX sobre os uivos das raposas sendo ouvidos à noite na capital, Kyoto, e dos animais subindo sorrateiramente os degraus das escadarias do palácio imperial.


Kitsune

O Nihon Ryakki não menciona quantas dessas raposas entraram em colisão
subsequente com calçados atirados por pessoas tentando dormir,
mas provavelmente não foram poucas.Imagem: Tetu


Se a raposa animal está se tornando mais rara na natureza, a kitsune como figura folclórica parece ter uma longevidade muito maior. Inicialmente o animal era considerado um sinal de bom agouro. Esse lado positivo da criatura é bem ilustrado pela sua associação com a divindade Inari, uma das mais importantes do Xintoísmo. Inari é conhecida como a divindade do arroz e do saquê, das plantações, da prosperidade e da fertilidade e é representada tanto com uma forma masculina quanto feminina. Os templos dedicados a Inari são muito numerosos, atingindo a casa dos milhares e são característicos por seus portões torii vermelhos e pelas várias estátuas de kitsune na entrada e no interior dos locais.


Templo de Inari

As duas raposas guardam a entrada do templo de Inari.Imagem: Amanda Braz


As raposas associadas à Inari são sempre brancas, presentes em números pares e agem como mensageiras da divindade. Por esse motivo, os templos oferecem pequenas tábuas de madeira caracterizadas como raposas em que os fiéis podem escrever seus desejos na parte de trás e desenhar a carinha do animal na frente.


Desenhos de kitsune

Alguns desses desenhos não parecem nada com uma raposa,
mas são estranhamente familiares. Imagem: Scott Edmunds


Mas a imagem mais conhecida da kitsune sem dúvida é a da pregadora de peças e impostora. Essa criatura seria um tipo de yôkai, um elemento sobrenatural que se diverte assumindo a forma de seres humanos, os enfeitiçando ou os possuindo. O folclore japonês está repleto de lendas que mostram esse lado traiçoeiro ou brincalhão da kitsune. Muitas dessas lendas estão registradas em livros como o Konjaku Monogatari.


Quadro kitsune

Uma kitsune que parece estar tendo um dia muito ruim.Imagem: richmanindochinatotem vu


Em uma delas, um samurai está preocupado, pois sua mulher estava demorando para regressar de uma viagem. Depois de muitos dias, a esposa finalmente retorna, mas logo em seguida outra mulher idêntica à sua aparece, com o mesmo rosto, as mesmas roupas, o mesmo corpo e até mesmo a mesma voz. O samurai percebe que uma delas deve ser uma kitsune disfarçada, mas hesita na hora de determinar qual é a farsante. Por causa da demora do esposo, a raposa consegue fugir. O homem lamenta não ter conseguido prender a criatura com uma corda, mas pelo menos não havia matado a própria mulher por acidente. Em outras lendas a kitsune se transforma em uma mulher jovem e bela para seduzir homens solitários e descuidados. As mulheres não são alvos da sedução da criatura, mas são por outro lado são as vítimas mais frequentes de possessão.


Quadro kitsune

Figurado acima: possíveis alvos para uma kitsune habilidosa.Imagem: Charlotte Marillet


Na cultura japonesa atual, essa ideia da kitsune como pregadora de peças e com capacidade de transformação está personificada em diversos personagens. Por exemplo, no mangá e anime InuYasha de Rumiko Takahashi, um dos personagens secundários é Shippô, um filhote de raposa que possui um arsenal de objetos que usa para pregar peças em seus inimigos e a capacidade de se transformar em várias formas diferentes. O caso de uma kitsune que usa suas habilidades de transformação para o mal é Ninetails, do jogo Okami para o Playstation 2. A raposa mata uma sacerdotisa e assume a sua forma. Graças a esse disfarce, ela consegue se aproximar da rainha Himiko sem levantar suspeitas, para também eliminá-la e se revela um dos vilões principais do jogo.


Outro mito popular ligado a essa criatura diz respeito ao número de suas caudas. Segundo a lenda, a cada cem anos de vida a kitsune adquire uma nova cauda, chegado a ter no máximo nove. Além disso, quanto mais caudas uma kitsune tem, mais poderosa e sábia ela é. Os fãs de Pokemon lendo este artigo com certeza já lembraram de dois Pokemon específicos inspirados nesse mito: a raposinha de fogo de seis caudas Vulpix e sua evolução, a raposa de nove caudas Ninetales. Outra raposa de nove caudas famosa entre os fãs de anime é a Nove-Caudas, do mangá e anime Naruto de Masashi Kishimoto. No início da história, a criatura de incríveis poderes se encontra selada no corpo do protagonista e é por esse motivo que o garoto é temido pelas outras pessoas da vila em que mora. Agora, já para quem tem vontade de ter um contato mais íntimo com o animalzinho, uma boa dica é Zao, a vila das raposas no Japão. Localizada na província de Miyagi, esse é um lugar em que os amantes de raposas podem ficar de frente com as seis espécies diferentes que andam livres pelo local em grande quantidade. Depois de pagar a entrada, os visitantes recebem comida para dar aos animais, embora não seja aconselhado dar a comida diretamente aos bichinhos, pois se tratam de animais não domesticados.


Kitsune dormindo

Uma das muitas raposas da vila tirando uma soneca.
Lembrete: contrabando de animais é crime, não importa o quão fofos eles sejam,
nem o quão felpudos sejam os seus rabinhos.Imagem: yari hotaka


Como forma de fechar esse artigo, fica a sugestão de homenagear essa criatura tão interessante comendo um prato que possui ao mesmo tempo o seu nome e a sua comida favorita: um delicioso kitsune udon, um tipo de sopa de macarrão com muito agê, o tôfu frito.


Kitsune udon

Só tome cuidado. Se alguém não desgrudar o olho do seu udon,
essa pessoa pode não ser o que parece.Imagem: Toshihiro Oimatsu



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